fichamento do texto de Freud: “Totem e Tabu
Totem e Tabu é uma expressão celebrizada
por Freud em 1913 no título de um seu livro sobre antropologia que examina as
origens da cultura e da civilização. O termo “totem” remete para o que então se
pensava se ruma forma de religião “primitiva” em que se adoravam os
antepassados representados no totem. A noção de “tabu” está ao totemismo
intimamente ligada na medida em que exprime alguns dos preceitos e interditos
que o sistema totémico tende a instituir. Capítulo I (p.7)
Se conhece o homem pré-histórico pelos
seus vestígios e impressões. Ele é, em certo sentido, nosso contemporâneo.
Assim, se considera os chamados de selvagens ou semisselvagens se nas suas
vidas pudermos reconhecer um estágio anterior e conservado de nossa própria
evolução. Se a premissa for correta, uma psicologia dos povos da natureza, da
etnografia, e a psicologia dos neuróticos, da psicanálise, mostrará várias
coincidências. Para fazer a comparação, escolheu as tribos que foram descritas,
pelos etnólogos, como as mais atrasadas e miseráveis, as dos aborígines do mais
novo continente, a Austrália. Estes, são vistos como uma raça particular, sem
parentesco com os seus vizinhos mais próximos: melanésios, polinésios e
malaios. (p.9)
O totem é transmitido hereditariamente,
por linha materna ou paterna. A relação com o totem é o fundamento de todas as
obrigações sociais para um australiano; ela se sobrepõe ao fato de pertencer a
uma tribo e ao parentesco sanguíneo. Capítulo II (p.12)
Tabu é uma palavra polinésia cuja
tradução é uma dificuldade por não possuirmos o conceito por ela designado. O
significado de tabu se divide em duas direções opostas. Por um lado quer dizer
santo, consagrado; por outro, inquietante, perigoso, proibido, impuro. O
contrário de tabu, em polinésio, é noa, ou seja, habitual, acessível a todos.
Assim, o tabu está ligado à ideia de algo reservado, exprime-se em proibições e
restrições, essencialmente. A nossa expressão temor sagrado corresponde ao
sentido de tabu. As restrições do tabu são algo diverso das proibições religiosas
ou morais por não se incluírem num sistema que dá por necessárias as privações
e fundamenta esta necessidade. (p.14)
O castigo para a violação de um tabu era
originalmente deixado para uma instância interior, de efeito automático. O tabu
ferido vinga a si mesmo. Só mais tarde com o surgimento de ideias de deuses e
espíritos que esperava-se uma punição do poder divino. Em outros casos, a
própria sociedade assumiu a punição dos infratores. A fonte do tabu é atribuída
a um poder mágico especial que é inerente às pessoas e espíritos e pode ser
transmitido por eles através de objetos inanimados. (p.25)
A proibição deve sua força - seu caráter
obsessivo- justamente à relação com sua contrapartida inconsciente, o desejo
oculto e não amortecido, ou seja, uma necessidade interna, inacessível à
compreensão consciente. E sua transmissibilidade e capacidade de expansão
refletem um processo que combina com o desejo inconsciente e é particularmente
facilitado pelas condições psicológicas do inconsciente.
O TABU DOS SOBERANOS A atitude dos povos
primitivos ante seus chefes, reis e sacerdotes é regida por dois princípios
básicos, que parecem antes se complementar do que se contradizer. É necessário
protegê-los, mas também proteger-se deles. Evita-se qualquer contato direto ou
indireto com a perigosa santidade e, quando isso não pode ser evitado, cria-se
um cerimonial para afastar as consequências temidas. (p.73)
Do ponto de vista genético, a natureza
associal da neurose resulta de sua tendência original de escapar de uma
realidade insatisfatória, rumo a um prazeroso mundo de fantasia. (p.81)
Os mais elevados motivos para o
canibalismo dos primitivos têm origem semelhante. Ao assimilar partes do corpo
de uma pessoa, devorando-as, o indivíduo se apropria também das características
que a ela pertenceram. Não faz diferença, para o efeito mágico, que o vínculo
já não exista, ou que tenha consistido apenas num só contato relevante. Em
poucas palavras: a função paterna é importantíssima para a constituição psíquica
do homem, na medida em que é por meio da operação da função paterna que a
criança poderá separar-se da mãe e voltar-se para o mundo, possibilitando sua
inscrição na cultura e no laço social. Freud, S. - Totem e Tabu. Vol. XII. Ed.
Standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago,
1974.
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